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24 outubro, 2015

Histórias do Projeto Ouvir e Contar



Hoje resolvi publicar todas as histórias do projeto Ouvir e Contar que já transformei. 
Coloquei no outro blog - não quero mudar a cor deste e sei que é ruim de ler aqui. 
Lá tá no branco, tem vários formatos, aproveite. 


Quer saber um pouco mais do que é o Ouvir e Contar? 

O Projeto Ouvir e Contar Histórias é um projeto em parceria (normalmente) entre o Instituto Historia Viva e o Instituto Velho Amigo, onde nós voluntários, vamos ao Lar dos Idosos e ouvimos suas histórias.

Conversamos e damos o nosso tempo e atenção integral para OUVIR cada um daqueles que conversamos. Ouvimos mesmo, não ficamos só de corpo. Participamos, registramos na cabeça e eles que falam, nós, ouvimos e tomamos algumas notas. 

Deveria ser em duplas, mas são tantas histórias e tantos idosos que muitas vezes nos separamos para tentar dar atenção para todos. Entende porque divulgo tanto? Sua participação nos grupos ajudaria nisso! :P Enfim. 

Em seguida, transformamos a história em algo lúdico e em formato mais infantil, tentamos seguir a Jornada do Herói. 

Se você é voluntário e está pensando em se voluntariar, atenção é ao lar que você irá, tem crianças de todas as idades, o público é exigente. Fica esperto! :-P Não dá para contar história de princesa ou aviãozinho falante para um guri de 11 anos que tá correndo por ali com o celular na mão ou para uma cotoquinha fofuxa que dá vontade de morder sobre Lobisomens que voltam a meia noite para pegar o pézinho na cama! :P então dá uma lida nas dicas e se prepara! :-D 

Em seguida vamos a casas de crianças em momento de vulnerabilidade para CONTAR essa história, literalmente cantamos, brincamos, apresentamos de modo que elas interajam e façam uma devolutiva, com um desenho, uma dobradura, uma lembrança que será repassada como recebimento da mensagem, afinal, somos contadores de histórias. 

Voltamos então ao lar e apresentamos a história para os idosos, entregando o presente das crianças.

Nesse momento, sempre surge outras histórias, sorrisos e, então, começamos tudo de novo. 
Gostou? Curti ai e visita os links abaixo: 

Veja também: 

23 agosto, 2015

10/11 dicas de como transformar seu texto

No projeto de voluntariado da ONG Velho Amigo com o apoio da ONG História Viva transformamos as histórias contadas pelos idosos em textos para crianças. Tentamos, por vezes, trazer ao idoso um sentimento de alegria em memoração as coisas boas ou engraçadas da sua vida. Nem sempre é possível, mas ai o ouvidor transformador precisa pegar a melhor parte e trazê-la para superfície.
Ter em mente que o objetivo é ouvir, transformar, contar.

Algumas vezes, seremos somente a válvula de escape para aquele momento dificil, para aquela crise de ansiedade ou saudade.  Porém é imprescindível ñ esquecer o simples: o ouvidor ouve (escuta, presta atenção) e se puder ajuda na transformação ali mesmo. 

E, em dia ruim, uma música ou uma recordação boa pode trazer risos, pode mudar o clima.
E é esse sentimento que queremos passar, ao menos, penso que seja assim. Dou meu tempo, meu ouvido e meu filtro mágico transformador de atenção e "prestençãoow" para esse fim (ouvir e transformar). Se puder sorrir, esse sim é o melhor compartilhamento.

Até porque, quem ouvirá a história costuma ser exigente e história chata, sem chances de sobreviver.

Muito do trabalho que fiz escrevendo textos fantásticos no Tinta Rubra que fundamos há 15 anos, (quem não sabe  o que é dê um google) ajuda a trabalhar melhor esse processo de transformação (escrever é um exercício constante) e, embora as propostas sejam diferentes, e claro, escrever para um público que varia de 3 a 13 e 70 a 90 não seja uma das tarefas das mais fáceis, algumas dicas são importantes e fundamentais.

Antes continuar: - são dicas pessoais que tento aplicar, que quero compartilhar. Cada um é livre para ler ou ignorar se for o caso ;) não sou o mestre dos magos com a fórmula mágica, leia se quiser e adapte por sua conta e risco.

Vamos lá:


1) Faça orações/frases curtas
Concorremos com a atenção ou a falta dela.
Um rebuscamento textual só prejudicará a compreensão.
Escreva linhas para um único sentimento, pois mais sentimentos esbarram em outros e a atenção já era.
Conte algo. Explique. E fale do outro assunto. Em pequenas doses. Contestar, deixe para o trabalho acadêmico. Aqui você estará criando uma história, não um dissertação.

2) Faça histórias curtas
Não existe um tamanho ideal. Vale o mesmo para parte da explicação acima.
Concorremos com a atenção e com a falta dela. Concorremos com personalidades, jeitos e conhecimentos diferentes. Com celular em alguns casos.
Não é porque você gostou da sua história que vai escrever um livro e "obrigar" seu público a ouvi-la.
No nosso caso ainda, há momentos que contaremos mais de uma história.
Pense em uma folha no máximo, com letras grandes para você conseguir fazer uma leitura em voz alta e de olho no seu público.

3) Leia em voz alta o seu texto
Conte a história para alguém que esteja ao seu lado.
Conte a história para você mesmo. Pode ser no banheiro, no microfone com fone de ouvido. Em um vídeo. Mas ouça-se, é importante.
Pegue opiniões, viaje, veja como está a captura de atenção.
Ouça-se. Perceba. Aceite que fez feio ou errado e faça de novo.
Veja onde pode tirar palavras ou trocar por algo que fique mais audível, mais fluído.
Em voz alta você percebe muito melhor que em silêncio.
Se estiver começando e tímido, grave para você ouvir, se você mesmo se distrair, já sabe né? Não vai pegar.

4) Use fonte 18 sem culpa.
Quando você ler a história para seus espectadores estará em volta de muita gente. Letras miúdas não abrirão espaço para você olhar para o lado. Nem ler de longe, gesticulando, olhando para seu ouvinte e percebendo o tédio ou a ansiedade de ouvir a próxima frase.
Além disso, O idoso que você presenteará na maioria das vezes terá catarata ou deficiências visuais, não o obrigue a pegar a lente de aumento.
Para a criança, você precisa estar literalmente com um olho no gato e o outro no prato! Letras pequenas requerem atenção. Letras grandes, você consegue focar em duas coisas.

5) Não passe lição de moral
O idoso é um ancião. Embora ele esteja com os filtros quase sempre desligados e sejam de "outra época" (não sei onde, mas fica pra outra discussão) eles tem o triplo de vivência que você. Eles já fizeram (se puderam) aquilo e muito mais que você já fez. Respeite o cabelo branco. E para crianças, leve o coração aberto, ensine com exemplos e modos e não com uma lição de moral.
Se quiser passar alguma ensinamento, aproveite a história contada pelo idoso.

6) conte Uma história
Aqui não vale a regra compre um leve três! Empenhe-se no fato, naquele instante. Naquela história. Mais que isso é: mais. Se quiser ter uma história, tenha UMA história! :-}

7) seja falho
Se alguém que chegou até aqui e ainda acredita que é dono da verdade, procure um psicólogo. Mas sempre é bom lembrar que nossa luta com o espelho é a mais difícil. Aceitar que fizemos um texto ruim, aceitar que não foi bom o suficiente, aceitar que todo o trabalho gerou mais trabalho é difícil, mas é importante.
Não fique com uma história que você não acredita.
Mude toda ela. É uma história!

8) Não faça uma reportagem.
Seu Tião, 98 anos, nascido em Pernambuco, com 10 filhos viu um fantasma. Não. "Existia naquela terra encantada o Tião, um ancião que beirava os 100 anos. Uma noite, com seus 10 filhos viu um fantasma!” Melhor talvez. Tente você.  
Não é uma entrevista e não é uma reportagem ou relatório.

9) ache seu jeito
Não precisa ser um poema, não precisa ser um conto de fadas, não precisa ser uma fabula. Pode ser uma ficção cientifica. HaiKai. Rimas soltas. Pode ser no futuro e não tem que começar com era uma vez. Faça o exercício: escolha uma coisa que aconteceu com você ontem e conte para alguém essa coisa pensando em como está contando. Depois tente fazer a mesma coisa "no papel".

10) não existe verdade
Um idoso poderá estar de péssimo humor e a criança poderá nem ligar pra você; aceite, mesmo que você siga todas as dicas. Além de praticar é preciso perder a vergonha, se jogar.

11) Concreto
Essa é uma dica mais técnica: as "inteligências" são diferentes. Se você estudou é capaz de entender abstrações e essas abstrações o remete a coisas que você não conhece.
Quem teve menos oportunidades, ou quem ainda está em formação, tem mais facilidade em identificar o dia a dia, o mais concreto.
Ao invés de bordô, use roxo.
Em vez de havia um círculo, havia uma bola.
É na simplicidade que está a facilidade para transmitir aquilo que você quer dizer, não dê voltas, seja concreto como um tijolo. E leve, como uma pluma.



Do resto é muito exercicio e leitura (em voz alta do que você escreveu). :)
Boa sorte.





21 maio, 2015

Pangué


http://historiaviva.org.br
http://www.velhoamigo.org.br

Um trabalho voluntário é um trabalho. Onde a recompensa é ajudar, mas não se engane, você ajuda e procura ajuda. Você precisa dedicar tempo, esforço, paixão e paciência. 
Também não deve ser um querer de empolgação, é frustrante ver muitos começarem e tantos sumirem pelo caminho sem ao menos dizer: tchau. Todos temos compromisso, então pense que é um curso, um grande aprendizado no período de um ano pelo menos.
Emprenhe-se.

Depois do sermão vale explicar o projeto: que ja está descrito nos sites acima em detalhes, mas é um projeto de ouvir, transformar/encantar e contar histórias. Em resumo: ouvimos idosos e incentivamos a falarem enquanto anotamos o que pudermos (pq eles curtem falar), depois sentamos e transformamos encantando a historia que os idosos disseram e em seguida, levamos essa historia para crianças e as contamos! Depois voltamos e contamos para os principais personagens e devolvemos tudo.

Enfim, se tiver intesse: entre nos sites no começo do post.

E quem é o Pangué?
Foi meu primeiro conto, a quatro mãos, com o Manoel Lobo (facebook: /manoel.lobo.1). 
Ele ouviu a historia inicial do idoso que falou que morava no sertão, com seus irmãos e precisavam ir buscar água sempre, no lombo de um burrico.

Enfim: aproveitem.

Apresento a todos a história do Pangué.

Existiam três garotos comuns, sem maiores ambições que um prato de comida e uma boa e refrescante água com limão para beber.

Viviam uma vida pacata, comum, numa fazenda em um país muito distante governado por um cientista maluco. 

Esses irmãos, toda os semana, pegavam o Pangué, um burrico inteligente e preguiçoso, para buscar suprimentos para família no castelo do cientista e viviam tranquilos sem muitas aventuras.

Certo dia, o cientista em um acesso de maluquice, proibiu a entrada de todos. 

- A água está confiscada e é minha! Ninguém mais entra no meu Castelo!

A notícia se espalhou como fogo e pegou todos desprevenidos. A tristeza e desolação tomou conta de todos. 

- Como faremos? Era a pergunta estampada nos olhos dos irmãos enquanto alimentavam Pangué.

- Temos que encontrar água, não importa como!

- Mas onde? Como? De que maneira vamos deixar nossa vida, nossa família e mudar tudo?

A discussão durou alguns dias enquanto a água de reserva ia acabando. O desespero e a tristeza se instalava. Era melhor desistir de tudo!

Foi então que o pai dos meninos os chamou e lhes ordenou que fossem à um reino distante, conhecido por suas abundantes águas límpidas e cristalinas.
 
Vocês devem trazer água para casa antes que seja tarde demais e acabemos morrendo de sede. Levem o Pangué com esses dois velhos baldes e os encham de água para que sobrevivamos a esses tempos difíceis.

O irmão mais novo foi montado sobre o velho burrico, que carregava também os dois baldes, um de cada lado, e seus irmãos o acompanharam a pé. Assim começaram sua jornada, em busca da água que salvaria sua família.

No entanto, o cientista maluco, governante daquele reino e auto-proclamado detentetor de toda a água do reino, não ficou nem um pouco satisfeito quando soube que alguém ousava tetar se apoderar de alguma água em seu reinado. Mesmo que a água em questão viesse de fora, isso certamente não estava certo! Ora, era uma petulância que algum de seus súditos ousasse querer água! E assim ele começou a arquitetar um plano para impedir que os meninos voltassem com aquela água.

Já havia alguns dias que os garotos estavam na estrada, rumo ao Reino das Águas Infindas, e não deviam estar muito longe agora, embora não soubessem disso. Deviam chegar lá em breve, mas estavam cansados, sedentos e famintos. Longe dalí, o cientista tinha chegado a um plano, certamente infalível, que tiraria os garotos de seu caminho e os impediria de alcançar a almejada água. 

Observando-os com sua luneta de alta precisão e longa distância, do interior de seu castelo-laboratório, o cientista esperou até     que os meninos se aproximassem de uma floresta densa e escura, à qual teriam de contornar antes de chegar ao seu destino. Quando eles estavam bem próximos, fez os cálculos finais e disparou de seu laboratório um dardo teleguiado em direção ao burrico dos garotos.

Ao sentir aquela picada repentina e dolorida, Pangué assustou-se muito e disparou em direção à floresta à sua frente! O irmão mais novo fez o que pôde para se segurar na sela, mas floresta adentro, acabou perdendo o equilíbrio e com uma forte pancada foi ao chão, enquanto o burrico continuava a correr assustado.

Ele vagou por aflitivas horas na mata sombria até conseguir encontrar seus irmãos, que também o procuravam. Os dois outros meninos já haviam recuperado o velho e assustado animal, e a muito custo convenceram-no a subir novamente no burrico.  Mesmo assim, estavam agora perdidos, com fome, com sede e o irmão mais novo trazia o corpo dolorido da queda. Não sabe-se quanto tempo passaram vagando, quase sem esperança, no interior da floresta escura, até verem, muito ao longe, por entre as árvores, o brilho da luz do sol. Se animaram, a esperança se inquietando em seus peitos, e apressaram-se em direção à luz!

Ao saírem, se depararam com uma das visões mais fantásticas que já haviam tido em toda a sua vida: uma grande cidade se erguia à sua frente, bem no centro de um imenso lago azul e refrescante. Animados, os garotos pularam no lago e refrescaram-se antes de começar a diligentemente encher os baldes com água, e começarem os preparativos para a viagem de volta.

Uma linda moça, que estava próxima encantou-se com a animação dos irmãos e susurrou um segredo ao ouvido do mais velho.

Ele sorriu, agradeceu, juntou todas as coisas e tomaram o rumo de casa em um silencio que emanava alegria.

Caminharam de volta tanquilamente, ate que encontram o cientista que os esperava na estrava que levava para sua familia.

Vocês não passarão! Essa agua também é minha! - bradou rindo loucamente o cientista.

O irmão mais velho, cochichou algo na orelha do pangué que disparou contra o cientista tranaformando-se num dragão alado com uma calda dagua. 

O cientista fugiu gritando, e as gotinhas de agua formaram varias nuvens, que se precipitaram em chuva. 

A barreira criada pelo cientista ruiu. Os irmãos voltaram com chuva. E fartura.

E quando perguntaram, o que havia acontecido. O mais velho respondeu:

- Aquela moça bonita era uma fada sereia. Ela me disse que o Pangué sempre esteve em nossas vidas para muda-la! Para nos apoiar porque nos amava e dividiamos nossas melhores horas com ele. Que ele, em sua forma original de dragão retribuiria quando mais precisassemos. O que fiz? Susurrei: você é nossa familia, o protegeremos. Para agradecê-lo porque achei que era o fim!

Todos abraçaram pangué. Viram o pequeno corrego cristalino que reluzia a luz do sol. E sorriram, finalmente em paz e felizes.

O mais novo gritou: Tenho um limão!

Todos deram de ombro e se lembraram que o que eles mais gostavam, era de uma agua fresca com suco de limão. Riram e correram felizes para o rio com pangue relinchando atras!


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